Cresce
o número de
mulheres ricas alcoólatras no SUS
Fernanda Aranda
Levantamento
mostra que entre 2006 e 2008 cresceu o número de
mulheres das classes A e B que buscaram tratamento na
rede pública de SP. Elas têm diploma universitário
e um bom emprego.
As mulheres
de classe econômica A e B, de famílias com
renda de mais de 15 salários mínimos por
mês (R$ 6.975), cada vez mais recorrem ao Sistema
Único de Saúde (SUS) em São Paulo
em busca de tratamento para o alcoolismo.
Levantamento
da Secretaria de Estado da Saúde mostra que, entre
2006 e 2008, cresceram em 28,8% os atendimentos a pacientes
do sexo feminino que, no geral, têm diploma universitário
e um bom emprego, mas preferem o anonimato do serviço
público à exposição em uma
clínica particular.
"Elas
têm melhor acesso à informação,
então conseguem identificar os locais onde tratamento
especializado é oferecido, como os hospitais universitários",
afirma Mônica Zilberman, especialista da Universidade
de São Paulo (USP) em alcoolismo feminino. "Mas
em parte a procura na rede pública é pela
vergonha de procurar o médico particular e ter
de assumir para a família que tem o problema. É
como se o serviço público preservasse a
privacidade dessas mulheres." Esse é o argumento
de Ana (nome fictício), de 36 anos, formada em
direito, mas dependente do álcool para viver e
do marido para consumir.
Há dois
anos, das pacientes atendidas na rede pública do
Estado, 371, ou 13,3%, eram mulheres com esse perfil.
Agora, elas são 478 e respondem por 16,1% do total
de consultas femininas. O avanço das mulheres com
melhores condições financeiras nos números
do SUS também veio acompanhado de um aumento geral
das pacientes de todas as classes sociais que sofrem do
problema.
Apenas durante
2008, todo dia oito mulheres em média procuraram
hospitais públicos para tentar solucionar o alcoolismo.
Elas contam que assistiram à destruição
de suas carreiras, relacionamentos, famílias ou
profissões em troca de copos de cerveja, taças
de vinho ou goles em uísque.
O universo
de 2.942 mulheres que procuraram os serviços em
2008 representa um aumento de 8% em relação
ao ano de 2006 (quando foram 2.717). Isso em um contexto
de redução de atendimentos masculinos, já
que foram 8,76% a menos de homens recebidos em unidades
públicas, mostra o mesmo balanço.
"Com a diferença que a sociedade já
aceita que a mulher beba, mas rejeita e condena que ela
se embriague", diz Silvia Brasiliano, coordenadora
do programa da mulher dependente química do Instituto
de Psiquiatria do Hospital das Clínicas.
"Ela carrega
o estigma de se tornar sexualmente promíscua quando
bebe, enfrenta mais preconceito e mais dificuldade de
procurar ajuda. Isso faz com que bebam sozinhas, escondidas,
muitas vezes até álcool de limpeza."
Para as mulheres
de classe econômica alta, o padrão de uso
de drogas é muito parecido com o de mulheres de
extrema pobreza, avaliam o psiquiatra Pedro Katz e a psicóloga
Dorot Verea. "Não há limites financeiros
para os dois grupos.
Para as mais ricas, o dinheiro em excesso abre as portas
para o consumo. E, para as mais pobres, a falta de verba
é tão recorrente que o uso de drogas após
o roubo ou a prostituição acaba como sendo
natural", diz Dorot.
Segundo eles,
o vício feminino é alimentado de culpas,
mágoas e pressão.
Tratar de si
própria muitas vezes significa ter de ficar distante
dos filhos e de todas as tarefas atribuídas à
mulher. Por isso, na clínica particular que possuem
em Perdizes, zona oeste, eles montaram o hospital dia,
sem a necessidade da internação.
Mesmo com todos
esses fatores, as mulheres procuram ajuda médica
em idades mais jovens do que os homens (elas aos 40 anos,
eles aos 50). Isso porque os efeitos do álcool
são mais devastadores no organismo feminino e instalam
a dependência mais cedo.
Luizemir Lago,
uma das responsáveis pela política sobre
drogas do Estado, lembra ainda das consequências
no sistema psicológico, já que muitas acabam
abandonadas pelos amigos, no emprego e pela família,
ainda que os parentes não saiam de casa.
Fonte:
Jornal da Tarde
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"Com
melhor acesso à informação,
elas sabem os locais onde tratamento é
oferecido." |
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